quinta-feira, 21 de junho de 2012







Dar é não fazer amor



(Luiz Fernando Veríssimo)

Dar é dar.
Fazer amor é lindo, é sublime, é encantador, é esplêndido.
Mas dar é bom pra cacete.
Dar é aquela coisa que alguém te puxa os cabelos da nuca…
Te chama de nomes que eu não escreveria…
Não te vira com delicadeza…
Não sente vergonha de ritmos animais. Dar é bom.
Melhor do que dar, só dar por dar.
Dar sem querer casar….
Sem querer apresentar pra mãe…
Sem querer dar o primeiro abraço no Ano Novo.
Dar porque o cara te esquenta a coluna vertebral…
Te amolece o gingado…
Te molha o instinto.
Dar porque a vida é estressante e dar relaxa.
Dar porque se você não der para ele hoje, vai dar amanhã, ou depois de amanhã.
Tem pessoas que você vai acabar dando, não tem jeito.
Dar sem esperar ouvir promessas, sem esperar ouvir carinhos, sem
esperar ouvir futuro.
Dar é bom, na hora.
Durante um mês.
Para os mais desavisados, talvez anos.
Mas dar é dar demais e ficar vazio.
Dar é não ganhar.
É não ganhar um eu te amo baixinho perdido no meio do escuro.
É não ganhar uma mão no ombro quando o caos da cidade parece querer te abduzir.
É não ter alguém pra querer casar, para apresentar pra mãe, pra dar
o primeiro abraço de Ano Novo e pra falar:
‘Que que cê acha amor?’.
É não ter companhia garantida para viajar.
É não ter para quem ligar quando recebe uma boa notícia.
Dar é não querer dormir encaixadinho…
É não ter alguém para ouvir seus dengos…
Mas dar é inevitável, dê mesmo, dê sempre, dê muito.
Mas dê mais ainda, muito mais do que qualquer coisa, uma chance ao amor.
Esse sim é o maior tesão.
Esse sim relaxa, cura o mau humor, ameniza todas as crises e faz você flutuar…
Experimente ser amado…




Elegia

(Augusto de Campos e Péricles Cavalvante)




Deixa que minha mão errante adentre
atrás, na frente, em cima, em baixo, entre
Minha América, minha terra à vista
Reino de paz se um homem só a conquista
Minha mina preciosa, meu império
Feliz de quem penetre o teu mistério
Liberto-me ficando teu escravo
Onde cai minha mão, meu selo gravo
Nudez total: todo prazer provém do corpo
(Como a alma sem corpo) sem vestes
Como encadernação vistosa
Feita para iletrados, a mulher se enfeita
Mas ela é um livro místico e somente
A alguns a que tal graça se consente
É dado lê-la

Delírio

           Acabo de encontrá-la em minha mente. Enfim, venci a distância com as asas de meu trôpego pensar. Eis o mais forte meio de amenizar o temor que me invade neste exato momento. É bem verdade que objetivo ignorar - esquecer – a carnificina ao redor. Mas, é impossível ludibriar a todos os sentidos. É gélido o leito em que me encontro, forrado pela terra embebida em sangue. Partilho-o, para minha dor, com aqueles com os quais outrora sorri. É a ausência do sorriso em suas faces que me faz fechar os olhos para o horror que me toma. Mas, o odor de sangue, suor e medo é um lembrete constante a me atormentar. Por fim, prendo a respiração. Tentativa de um escapismo desesperado. Contudo, a audição mostra-se traiçoeira. Ainda ouço estouro dos tiros, as balas, violentas, que laceram corpos e o ar.
                                


    Apegar-me ao pensamento é tudo o que me resta. Peço para ir para longe. Viajo delirante por minhas memórias. É bem verdade que o temor me acompanha. Porém, consigo chegar até o Éden de minhas recordações. Posso vê-la sorrindo enquanto acaricia meu rosto. Olhares brilhantes são os nossos. Alvos são os lençóis, que invejam a cor morena de minha Eva. Cenário tão maravilhoso é este, que talvez só deva existir em meu imaginário. Não culparia minha mente por vacilar agora. Pouco importa. Esta fantasia é o que me mantém vivo. O que me impede de ceder ao pânico e expor ao ‘inimigo’ que dentre o jardim de cadáveres ainda resta uma vida a ser ceifada.
     Milhares de sonhos agora se decompõem a minha volta. Esperanças dilaceradas impiedosamente por uma causa que não lhes pertence. Tantas eram as promessas que os trouxeram até aqui. Tantas eram as promessas que os fariam regressar. Perderam-se todas afinal. Os corpos, infelizmente, foram mais frágeis que os sonhos. O aço que arranha o vento não tem qualquer pudor, atravessa vidas como fossem meros obstáculos. Triste é pensar que além do rastro de sangue, há o das lágrimas daqueles corações otimistas que optaram por ignorar o óbvio e são surpreendidos pela perda.
     Tantas são as divagações que tentam atrair minha imaginação neste momento. Mas, prefiro permanecer preso a ela. Quase posso senti-la afagando meus cabelos. Terei eu esta felicidade uma vez mais? Lembro-me da última carta. O perfume dela no papel. As letras desenhadas. As frases de amor bem elaboradas. É preciso sobreviver. Nem que seja para vê-la uma única vez. Logo há de amanhecer. Ao cessar dos tiros poderei manifestar a vida que ainda tenho. Fugir. Esquecer esta paisagem horrenda.
     Repentinamente fez-se o silêncio. Minhas preces devem ter sido ouvidas. Mais alguns instantes de espera e poderei me apartar deste horror que me congela a alma. O Sol haverá de lançar seus raios e eu poderei voltar à vida. Estes são meus pensamentos. Contudo, ouço passos que se aproximam. Esquecia-me do principal detalhe: sempre há um soldado que é o último a deixar o campo de batalha; a ele cabe a árdua missão de por fim às vidas agonizantes que persistem. É ele quem está agora diante de mim. Prendo a respiração. Porém, o frio e o medo me fazem tremer. É o fim: a baioneta ensangüentada já atravessou minha garganta.
     Abro os olhos para encarar a face de meu carrasco. O horror se apodera de mim uma vez mais. Os olhos diante de mim são os dela. O sangue escorre por meus lábios e mancha os lençóis alvos. Ela está a afagar meus cabelos. Há um sorriso sádico em sua face. Há um punhal ensangüentado em suas mãos. Que sonho horrendo é este que atormenta meus últimos suspiros? Será um derradeiro delírio? Serei eu mais um elemento sem vida a compor aquela paisagem funesta? Ou será que desde o início sou parte dela e estava a ser ludibriado por meu pensar vacilante? Não há mais tempo: afoguei-me em meu próprio sangue.  


Texto de Robson Heleno gentilmente cedido pelo autor.
Mais textos de Robson Heleno em http://subitoobjetivo.blogspot.com.br/

Fonte da Imagem: http://subitoobjetivo.blogspot.com.br/2012/05/delirio.html
O Caminho da Vida

Charles Chaplin

O caminho da vida pode ser o da liberdade e da beleza, porém nos extraviamos.
A cobiça envenou a alma dos homens... levantou no mundo as muralhas do ódios... e tem-nos feito marchar a passo de ganso para a miséria e morticínios.
Criamos a época da velocidade, mas nos sentimos enclausurados dentro dela. A máquina, que produz abundância, tem-nos deixado em penúria.
Nossos conhecimentos fizeram-nos céticos; nossa inteligência, empedernidos e cruéis. Pensamos em demasia e sentimos bem pouco.
Mais do que de máquinas, precisamos de humanidade. Mais do que de inteligência, precisamos de afeição e doçura. Sem essas virtudes, a vida será de violência e tudo será perdido.


quarta-feira, 20 de junho de 2012






Fumo


Florbela Espanca

Longe de ti são ermos os caminhos
Longe de ti não há luar nem rosas
Longe de ti há noites silenciosas
Há dias sem calor, beirais sem ninhos


Meus olhos são dois velhos pobrezinhos
Perdidos pelas noites invernosas
Abertos sonham mãos cariciosas
Tuas mãos doces, plenas de carinho

Os dias são outonos: choram, choram
Há crisântemos roxos que descoram
Há murmúrios dolentes de segredo
Invoco o nosso sonho, entendo os braços

e é ele oh meu amor, pelos espaços
fumo leve que foge entre os meus dedos.




Êxtase em dose dupla

Paixão


Kledir Ramil
Amo tua voz e tua cor
E teu jeito de fazer amor
Revirando os olhos e o tapete
Suspirando em falsete
Coisas que eu nem sei contar

Ser feliz é tudo que se quer
Ah! Esse maldito fecho eclair
De repente a gente rasga a roupa
E uma febre muito louca
Faz o corpo arrepiar
Depois do terceiro ou quarto copo
Tudo que vier eu topo
Tudo que vier, vem bem
Quando bebo perco o juízo
Não me responsabilizo
Nem por mim, nem por ninguém

Não quero ficar na tua vida
Como uma paixão mal resolvida
Dessas que a gente tem ciúme
E se encharca de perfume
Faz que tenta se matar
Vou ficar até o fim do dia
Decorando tua geografia
E essa aventura em carne e osso
Deixa marcas no pescoço
Faz a gente levitar
Tens um não sei que de paraíso
E o corpo mais preciso
Do que o mais lindo dos mortais
Tens uma beleza infinita
E a boca mais bonita
Que a minha já tocou