quarta-feira, 20 de junho de 2012



        Sugar e ser sugado pelo amor


 

Carlos Drummond de Andrade



Sugar e ser sugado pelo amor no
mesmo instante boca milvalente
o corpo dois em um o gozo pleno
Que não pertence a mim nem te pertence
um gozo de fusão difusa transfusão
o lamber o chupar o ser chupado
no mesmo espasmo
é tudo boca boca boca boca
sessenta e nove vezes boquilíngua.
                                                                      Amor Mendigo


Ando distraída de meus passos,
Tua marcha, agora, é minha alvorada.
Não te culpo,
Posto que minha seja toda a culpa
Por amar-te sem medida e,
Minha vida já não existe distante da tua.

Ando apaixonada, simplesmente.
E de meus versos exala um quarto do amor
Que me sufoca a alma.
Amo-te tanto que,
Deixar-te livre é o mesmo que sofrer,
Entretanto, como prender um beija-flor
Que de minha água doce jamais bebeu?

Tu me destróis em cada gesto,
Mas os faz tão delicados,
Que tua simples passagem já colore o meu dia.
Esperar-te-ia dias, meses, anos,
Toda a minha vida,
Posto que grande e quente como sol é o meu amor
e nunca há de esvaecer.

Amo-te sem esperar de ti um riso,
Um afago, ou uma flor sequer,
nem esperar ser lembrada, se um dia você resolver partir.
És meu laço, meu riso, meu fato.
          Se vivo, é por meu sangue ser teu amor e,
Por ser meu olhar mendigo de teus passos,
De teus gestos, de teus abraços.

                                        Raíssa Bahia



Texto de Raíssa Bahia. Mais textos da autora em http://raissabahia.blogspot.com


SONETO DO PRAZER EPHEMERO



DU BOCAGE

Dizem que o rei cruel do Averno immundo
Tem entre as pernas caralhaz lanceta,
Para metter do cu na aberta greta
A quem não foder bem ca neste mundo:

Tremei, humanos, deste mal profundo,
Deixae essas lições, sabida peta,
Foda-se a salvo, coma-se a punheta:
Este prazer da vida mais jucundo.

Si pois guardar devemos castidade,
Para que nos deu Deus porras leiteiras,
Sinão para foder com liberdade?

Fodam-se, pois, casadas e solteiras,
E seja isto ja; que é curta a edade,
E as horas do prazer voam ligeiras!

terça-feira, 19 de junho de 2012

"Mesmo que não queiras mais ouvir"







Adil Bahia

Quando chegar o amanhã
Eu já terei partido daqui
Não existirá mais a imagem
Nem mesmo um rastro de mim

Quando chegar o amanhã
A lua já terá se escondido
E meus sonhos mais ocultos
Estarão desfeitos por ti

Quando chegar o amanhã
As cores não mais existirão
Meu mundo será como o caos
Escuro, negro e sem nós

Quando chegar o amanhã
Não haverá verdade absoluta
Nem mentiras capazes de dizer
Tudo o
que fui ou o que sou eu

Quando chegar o amanhã
O sol se inibirá e não surgirá
Dos céus só a chuva cairá
Será meu choro, meu lamento

Quando chegar o amanhã
Lembrarás que já te disse
Com mil olhares sutis
Outras mil palavras de amor

Quando chegar o amanhã
Saberás de tua própria boca
O que sempre quiseste saber
Sobre o que penso ou sinto por ti

Quando chegar o amanhã
Encontrarás em cada carinho
Em cada afago ou carícia que fiz
Um beijo, dois beijos de mais amor

Quando chegar o amanhã
Verás que tudo era tão lindo,
Tão simples, tão perto e
Se tornou complexo, tão distante

Quando chegar o amanhã
Aquilo que vivemos passará
E num passe de mágica vai virar pó
A se espalhar no ar da saudade

Quando chegar o amanhã
Verás que tudo tem seu tempo
Que a flor tem de nascer no momento exato
Nem antes nem depois, mas durante o orvalho

Quando chegar o amanhã
Você não vai mais lembrar do hoje
O sim já haverá se tornado passado
E o talvez permanecerá futuro

Quando chegar o amanhã
Ainda estarei contigo a toda hora
Mas, agora em silêncio, sereno
Sem as loucuras do meu desejo

Quando chegar o amanhã
Procurarei teus em teus olhos
As respostas para tudo
E me dirás: “Sim, eu sei”

Quando chegar o amanhã
Saberás que de nada adianta
É tempo perdido, bobagens
Achar que te esqueci

Quando chegar o amanhã
E despertares do sonho
Verás que estou ao teu lado
ainda faço parte de ti

Quando chegar o amanhã
Aprenderás que nunca é tarde
Pra dizer: “Também te amo”
Mesmo que não queiras mais ouvir







                               A ti amor



Adil Bahia

Ao meu amor um beijo. Um beijo, grande suave, sedento. Um beijo daqueles que ninguém imaginou. Não pensou ver ou mesmo ousou sentir. Ao meu amor carinho. Alimento de seres e pares. Há um carinho de dengo e tudo mais. Há meu querer maior que o mundo. Há meu amor guardado pra ti.

                         Nas velas



Adil Bahia



Vou partir agora em minha nau esquecida
Deixada por dias no fundo do mar de teu peito
Por anos em meio à desilusão do amor
Feitiço de sonhos que impedem o sono sereno
Venha pecado, veneno, sofrimento, prazer
Venha deixar-me a marca do desejo por todo o corpo
Feito ferro e brasa. Como fogo e espada em minha pele alva
Não te acanhes se disser que te perdi à toa, pois é real
Fatias de teus lábios estão a me deliciar boca a boca
Perversão, romance, trama de dor, matilha na relva
Aonde vou agora que já deixaste meu mundo em lama?
Fracassos, caprichos, ódios, perdões são pequenas peças
Neste teatro da vida que me elevam ao céu de tua boca
Agora seca e manchada de chão molhado de rio